JULHO DAS PRETAS: QUANDO A LUTA SINDICAL ENCONTRA A ANCESTRALIDADE

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Julho é tempo de retomada, de reinício. Tempo de lembrar que, em 25 de julho, celebra-se o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha — data que nasceu do Primeiro Encontro de Mulheres Negras, em 1992, na República Dominicana, mas que remonta à mobilização iniciada em Bertioga, em 1988. Um mês que convida à escuta, à reflexão e, sobretudo, à ação.

A ADUNEB, através da Coordenação de Gênero, Etnia e Diversidade, entende que a pauta sindical não pode caminhar dissociada dessa memória. Falar em condições dignas de trabalho, em equidade salarial, em progressão na carreira docente e em combate ao assédio institucional é, também, falar sobre o lugar que as mulheres negras ocupam — ou deixam de ocupar — nas universidades e escolas brasileiras.

Lélia González já apontava que o racismo e o sexismo se entrelaçam de forma indissociável na sociedade brasileira, produzindo aquilo que chamou de neurose cultural: um país que nega seu próprio rosto afro-diaspórico enquanto marginaliza quem o sustenta. Sua noção de amefricanidade convoca a pensar a experiência negra como projeto político e epistêmico, não como nota de rodapé.

Ao propor o enegrecimento do feminismo, Sueli Carneiro nos lembra que não existe luta por igualdade de gênero que dê conta da realidade se não incorporar a dimensão racial. Cunhou também o conceito de epistemicídio, denunciando o apagamento sistemático dos saberes produzidos por mulheres negras nas instituições de conhecimento — as mesmas instituições em que hoje se trabalha, ensina e pesquisa.

A partir de Djamila Ribeiro compreendemos que, ao desenvolver a noção de lugar de fala, reforça que a representatividade não é capricho identitário, mas condição de justiça epistêmica: quem vive determinada opressão tem experiência e legitimidade para narrá-la a partir de si. Isso interpela diretamente a composição das categorias docente e técnica, as bancas, as chefias, os espaços de decisão.

Beatriz Nascimento, por sua vez, ensinou a pensar o quilombo para além do território físico: como movimento contínuo de reexistência, articulação e memória. Sua obra convida a enxergar cada espaço de organização coletiva — inclusive o sindical — como um quilombo possível, um lugar de reinvenção da vida em comum.

É nesse cruzamento de saberes que a pauta sindical da ADUNEB se fortalece. Defender direitos trabalhistas, políticas de permanência e ascensão para servidoras negras, mecanismos de combate ao racismo institucional e espaços de escuta qualificada não é uma agenda paralela à luta antirracista: é parte constitutiva dela.

Julho das Pretas é, portanto, um convite. Um convite a olhar para dentro das instituições e perguntar: quem ocupa as posições de decisão? Quem tem seu trabalho reconhecido e remunerado com justiça? Quantas mulheres negras seguem, ainda hoje, resistindo em silêncio a estruturas que insistem em não enxergá-las?

Que este mês seja tempo de reflexão coletiva e de compromisso renovado com uma universidade — e um sindicato — que se construam, de fato, antirracistas e equânimes.

Nenhuma conquista de direitos trabalhistas no Brasil nasceu isolada das ruas, dos terreiros, das quebradas e das organizações populares. A história sindical brasileira sempre se fez em diálogo — e muitas vezes em tensão produtiva — com os movimentos sociais que denunciam as desigualdades estruturais do país. Com o movimento negro, esse diálogo é ainda mais visceral: não há pauta trabalhista descolada da pauta racial, porque o próprio mundo do trabalho no Brasil foi fundado sobre a exploração de corpos negros escravizados e segue reproduzindo, sob novas formas, hierarquias raciais na distribuição de cargos, salários e reconhecimento.

A ADUNEB, por meio da Coordenação de Gênero, Etnia e Diversidade, reafirma seu compromisso com essa aliança histórica. Estar ao lado dos movimentos negros, quilombolas, de mulheres e LGBTQIAPN+ não é gesto simbólico: é reconhecimento de que a universidade pública só cumpre sua função social quando disputa, também, o projeto de país que se quer construir. Apoiar greves, ocupações, marchas e articulações comunitárias é parte do mesmo movimento que luta por planos de carreira justos, por condições dignas de trabalho e por uma gestão democrática das instituições de ensino.

Nesse percurso, o letramento racial se apresenta como ferramenta indispensável. Trata-se do processo, sempre inacabado, de aprender a nomear o racismo em suas manifestações estruturais, institucionais e cotidianas — e de desenvolver a capacidade de agir diante dele. Letrar-se racialmente é romper com o silenciamento que durante décadas naturalizou a ausência de professoras e professores negros nas universidades, a sub-representação em cargos de chefia e a invisibilização de epistemologias africanas e afro-diaspóricas nos currículos.

Esse processo não se limita à sala de aula. Ele atravessa a atuação sindical quando se exige que editais, comissões e processos eleitorais internos considerem critérios de equidade racial; quando se cobra que a formação continuada de docentes e técnicos incorpore a Lei 10.639/2003 e a Lei 11.645/2008 não como cumprimento burocrático, mas como projeto pedagógico vivo; e quando se constrói, coletivamente, um vocabulário comum para identificar e enfrentar o racismo institucional.

A trajetória dos movimentos negros brasileiros — do movimento quilombola contemporâneo às organizações de mulheres negras, passando pelas pautas de educação antirracista e pelas lutas por reparação histórica — ensina que letramento racial e organização coletiva caminham juntos. Não se trata de teoria distante da prática sindical, mas de gramática comum: entender o racismo para poder combatê-lo nas relações de trabalho, nas políticas institucionais e na vida cotidiana da universidade.

Fica o convite: que cada docente, técnico e técnica, ao participar da vida sindical, também se pergunte sobre seu próprio processo de letramento racial. Que instrumentos têm sido usados para reconhecer o racismo nas rotinas de trabalho? Que alianças têm sido construídas com os movimentos sociais que historicamente sustentam essa luta? A resposta a essas perguntas é o que transforma a pauta sindical em compromisso antirracista efetivo.

 

Edson Fernando Oliveira Silva atua como Docente da UNEB (DEDC XIII) e Coordenador Pedagógico da Educação Básica (SEC-BA). O coordenador de Subseção Departamental da ADUNEB possui formação em: Pedagogia (DEDC XIII - UNEB), Especialização em Política do Planejamento Pedagógico (DEDC XIII - UNEB), Mestre em Educação e Contemporaneidade (PPGEduC / UNEB), Doutorando em Estudos Étncios e Africanos (Pós-Afro / UFBA). É Coordenador de Subseções Departamentais da ADUNEB. 

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