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Contribuição ao Debate sobre o Movimento dos Educadores
das Universidades Estaduais da Bahia
Professor Mauricio Mogilka
Departamento de Educação – Campus I
Colegas,
participei das três últimas assembléias do movimento
dos trabalhadores universitários, do qual faço parte,
e como tempo de fala é curto nestes momentos, para que todos
possam falar, preferi trazer algumas idéias sobre o meu apoio
ao nosso movimento na forma deste breve texto. Eu o organizei como
resposta aos principais argumentos dos colegas que são contra
(total ou parcialmente) ao movimento. Quero esclarecer que tenho o
maior respeito a estes colegas, embora não concorde com os
seus posicionamentos.
Quero também deixar claro que, não obstante a minha
simpatia pelos partidos que estão tentando re-aglutinar as
forças progressistas no Brasil (PSOL, PSTU, PCO e PV), não
sou filiado a nenhum deles. Este texto é uma contribuição
ao nosso movimento de base, que deve ser sempre supra-partidário. PRIMEIRO
ARGUMENTO: NÃO SOMOS A FAVOR DE UM MOVIMENTO QUE LUTA
POR SALÁRIOS POIS ISTO É UMA CAUSA COORPORATIVISTA;
O IMPORTANTE É A UNIVERSIDADE PÚBLICA CONTRA-ARGUMENTO: Discurso da desimportância da luta por salários
peca por dois motivos, na minha opinião. O primeiro é
a evidente importância da segurança material para a plenitude
da vida humana. Não há nada de indigno em se lutar por
salários decentes, se esta luta é articulada à
melhoria das universidades como um todo (que é claramente o
encaminhamento do nosso movimento). Este argumento me lembra aquela
antiga ideologia segundo a qual ser educador é um sacerdócio,
uma profissão de renúncias e privações,
tão divulgada pelas elites em nosso país por décadas.
Mas nós não somos sacerdotes, somos educadores, pesquisadores
e trabalhadores sociais. Nós não fizemos voto de pobreza,
nem de obediência, nem de castidade.
O segundo motivo é que este argumento considera que salários
e qualidade da universidade pública são fenômenos
estanques. Mas como ter um serviço de qualidade se não
ganhamos de forma digna? Não há qualidade no serviço
público se os seus trabalhadores não tem qualidade de
vida! SEGUNDO ARGUMENTO: A GREVE É ATÉ IMPORTANTE
E PODE DAR RESULTADO, MAS ELA COMPROMETE TODO NOSSO TRABALHO E O NOSSO
PLANEJAMENTO; A REPOSIÇÃO DO SEMESTRE NUNCA TEM A MESMA
QUALIDADE; ISTO PREJUDICA A UNIVERSIDADE PÚBLICA CONTRA-ARGUMENTO: O que está em jogo não são apenas salários
e a qualidade do trabalho com nossos alunos e com as comunidades de
nossos projetos de extensão, mas a própria sobrevivência
da universidade pública. Isto significa, no limite, a manutenção
dos bens públicos, isto é, aqueles que servem a todos,
e não apenas às pessoas que podem pagar. Está
em curso na América Latina, desde os anos noventa, um fortíssimo
processo de privatizações. O projeto da maioria dos
governos em nosso continente é privatizar tudo. No Brasil,
já se privatizaram as telefônicas, os bancos estaduais,
as companhias de eletricidade, as siderúrgicas. Já se
está pensando em privatizar até as penitenciárias,
como nos EUA. As escolas e as universidades públicas, contudo,
não passaram por este processo justamente devido à forte
resistência de seus alunos e de seus profissionais.
Um fato gravíssimo está ocorrendo neste momento: o governo
Lula já está fazendo tramitar no congresso uma lei para
limitar o direito de greve dos servidores públicos. Deveríamos
estar protestando nas ruas de todo Brasil. O que será do serviço
público e do próprio estado se nem os servidores puderem
exercer o direito constitucional de lutar por seus direitos e salários?
Na Bahia o governo anterior já estava semi-privatizando os
hospitais públicos, contratando cooperativas de médicos
ao invés de profissionais por concurso. Já se davam
sinais de querer também encaminhar a privatização
das quatro universidades do estado. Não parece que o projeto
do atual governo seja muito diferente disso. Quando eu comecei a debater
com minhas alunas, neste semestre, o meu apoio e concordância
à deflagração do nosso movimento, descobri que
95% delas eram contra. Argumentavam que precisavam terminar logo o
curso, sem atrasos.
Eu procurei demonstrar que se elas estudam em uma universidade gratuita
e com a qualidade da UNEB, isto só se dá, hoje, porque
no passado alunos, professores e funcionários fizeram movimentos
de resistência e contra-hegemonia como este; e se elas querem
universidades públicas para seus filhos, a hora de lutar é
agora. Depois destes debates, muitas delas repensaram as suas posições
iniciais. O mesmo vale para nós educadores da universidade:
vale a pena dar uma pausa nos nossos projetos, para que tenhamos projetos
no futuro. Ou queremos que isto aqui vire uma grande FTC? TERCEIRO ARGUMENTO: PRECISAMOS DAR UMA CHANCE AO
GOVERNO WAGNER, CINCO MESES É MUITO POUCO; NÃO SERÁ
POSSÍVEL QUE REALMENTE NÃO HAJA VERBA PARA DAR UM AUMENTO
MAIOR? CONTRA-ARGUMENTO: Quando um governo não tem condições
financeiras de investir na área social mas tem comprometimento
popular, ele constrói com os setores sociais o projeto de governo,
com prazos e metas definidos, que serão cumpridos. Este diálogo
democrático promove confiança e credibilidade do governo
junto à população. Isto o fortalece em momentos
difíceis. Por exemplo, o governo Evo Morales, da Bolívia,
com fortíssimo apoio popular, já encaminhou reformas
de base no país no primeiro mês de governo. Ele não
esperou o momento propício, ele criou o momento propício.
O governo Wagner demonstra uma absoluta falta de projeto para a Bahia,
em todas as áreas (a não ser que o seu projeto seja
o mesmo do governo anterior). Quem quer fazer, faz; quem não
quer fazer, fala. No atual embate entre o nosso movimento e o governo
estadual, o que está acontecendo, na minha interpretação,
é um leve prenúncio da opressão que marcará
os próximos quatro anos de governo na Bahia. O nosso movimento
é um sinal do grau de rebelião e resistência que
o governo enfrentará, pois várias categorias de servidores
já capitularam, representados por uma federação
(FETRAB) absolutamente ilegítima e aparelhada. Alguma categoria
de servidores precisa enfrentar a política que se anuncia,
ou seremos como os bois que vão para o matadouro silenciosamente.
Nossa categoria tem toda capacidade e energia para esta missão
histórica e exemplar, estabelecendo na luta um novo patamar
das relações estado-trabalho. Este novo patamar seria
fundamental para inspirar outras categorias de servidores à
luta. Se não temos esta visão e esta consciência
histórica, para que estudamos tanto? Para que fazer mestrado
e doutorado, se na hora do enfrentamento político preferimos
ficar na frente do computador, dissertando teoricamente sobre a miséria
e a opressão, quando a luta contra este estado de coisas poderia
estar acontecendo na práxis?
Belíssimo exemplo estão dando os estudantes, que pararam
a UNEB no dia 05 de junho. Eles sublevaram–se contra um DCE
que combate a greve de educadores e de alunos da UNEB, quando nossos
estudantes não tem restaurante universitário, residência
estudantil, bolsas de estudos, não tem salas, não têm
professores... QUARTO ARGUMENTO: NÃO PODEMOS ENFRAQUECER
O GOVERNO WAGNER, PARA NÃO FORTALECER A VOLTA DO CARLISMO:
AFINAL, ESTE GOVERNO É SUBSTANCIALMENTE DIFERENTE DO ANTERIOR CONTRA-ARGUMENTO: Estamos repetindo, em nossas assembléias, exatamente
o discurso que o governo atual quer. Esta idéia está
baseada na suposta diferença entre o atual governo e o governo
fascista que o precedeu. Contudo, o atual comandante da PM é
o mesmo do governo anterior. A polícia continua espancando
os sem-tetos em suas manifestações (início deste
ano). A polícia militar agride estudantes durante a legítima
onda de protestos contra o aumento das passagens de ônibus para
R$ 2,00. Enquanto isto, o governador diz na imprensa que temos uma
polícia de primeiro mundo.
Não podemos deixar que nossa justificável rejeição
ao carlismo nos impeça de ver que este e o governo anterior
são grupos políticos diferentes, mas servem às
mesmas elites. A prova disto é a total ausência de críticas
destas elites ao novo governo. Alguém ouviu alguma crítica
deste tipo? Se este governo é popular e progressista, porque
é tão agradável para elas? Nenhum grupo pode
servir a dois senhores. Ou se compromete com a população,
e enfrenta as elites com apoio popular, ou se compromete com as elites,
e reserva para as forças populares a retórica.
Eu posso estar muito enganado, mas o governo Wagner tem o mesmo projeto
político do governo Lula, que não é transformar
a realidade social brasileira (como foi prometido), mas se manter
no poder o maior tempo possível. QUINTO ARGUMENTO: AS GREVES NÃO SÃO
EFICAZES, NÃO CONSEGUIMOS NADA NOS MOVIMENTOS DE 2002 E 2005 CONTRA-ARGUMENTO:
A
greve de 2002 foi vitoriosa em mais de ponto, sendo provavelmente
o mais relevante a conquista do estatuto do magistério superior.
Em 2005 não obtivemos nada de nossa pauta devido à intransigência
do governo; aparentemente sofremos uma completa derrota. Mas nem todas
as conquistas de um movimento social são diretas e imediatas.
O governo Paulo Souto não se reelegeu; é interessante
que o atual governo tenha isto em mente.
Eu passei doze anos da minha vida em um intenso ativismo a favor da
candidatura Lula à presidência (quando PT e PC do B eram
partidos comprometidos com causas populares). Além disto, votei
em 2006 na candidatura Jacques Wagner. Mas um governo que não
age com franqueza e não trata a população que
o elegeu com comprometimento e humanidade, não pode merecer
o nosso apoio.
Associação
dos Docentes da Universidade do Estado da Bahia. Estrada das
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