Capitalismo organizacional e trabalho – a saúde do docente
Resenha por Ana Manuella Soares
A edição de janeiro de 2010 da Revista Universidade e Sociedade* foi
dedicada ao tema Reforma da Educação e Trabalho Docente. Em seu artigo
Capitalismo organizacional e trabalho – a saúde do docente, o professor
Francisco Antônio de Castro Lacaz, da Universidade Federal de São Paulo
(Unifesp) e pesquisador na área de Política, Planejamento e Gestão em
Saúde, discute de que forma a lógica capitalista e a reestruturação
neoliberal, por ele identificada como capitalismo organizacional, atinge
os espaços da universidade pública e repercute na saúde dos
trabalhadores, em especial, dos docentes.
Essa nova forma de trabalho imposta por políticas de governos,
administrações e agências de fomento tem como base a competição por
verbas, o produtivismo e o individualismo, a captação no mercado de
recursos para o financiamento de pesquisa e têm gerado, segundo o autor,
tensão e estresse crônicos que instalam entre os professores a Síndrome
de Burnout.
A Síndrome de Burnout caracteriza uma despersonalização do profissional,
neste caso, dos docentes, associada a sentimentos de desmotivação,
desinteresse e a sensação de frustração extrema. (...) “nos marcos da
(re) organização do trabalho, de cunho neoliberal, cuja lógica tem
‘colonizado’ a gestão de serviços e bens públicos, como universidades e
hospitais”, os docentes se encontram subordinados a um ideiario que
impõe à sua identidade de trabalho a prestação de um serviço e não
mais a produção de conhecimento socialmente livre e não dirigido ao
mercado.
Em referência a Edouard Orban, o autor diz que o “processo de trabalho
em serviços, o resultado do processo é consumido ao mesmo tempo em que é
produzido, sendo colocados em contato direto trabalhador e consumidor,
conforma-se a chamada co-presença”, o que pode exercer pressão em
relação ao tempo de produção dos ‘serviços’ acadêmicos.
“Frisa-se que a co-produção tem como “subproduto” o auto-serviço, em que
o consumidor age no processo de trabalho, trazendo como consequencia a
diminuição dos postos de trabalho. Eis uma aproximação do que ocorre
hoje, na área do ensino e que se assemelha com a co-produção: é a
chamada educação a distância, que prescinde da presença do professor!”
No item que trata do Capitalismo organizacional nas Instituições
Públicas de Ensino Superior, o autor fala da questão do gerencialismo
como a forma de organização escolhida pelas administrações. Este
gerencialismo seria uma forma de contaminação da gestão pública por
estratégias de organização próprias das administrações privadas,
“particularmente naquilo que se refere à precarização das relações e dos
vínculos de trabalho, ao elevado turnover (alta taxa de rotatividade no
emprego), à ausência de direitos sociais etc. (LACAZ ET et al.,
2008).”
Para entender os efeitos da flexibilização do trabalho nas universidades
públicas, o autor ressalta as consequências psicossociais que se
estabelecem a partir da lógica mercantilista de produção adotada,
principalmente entre os docentes e os servidores administrativos. Do
ponto de vista teórico, “esse contexto pode ser situado nos marcos do
chamado capitalismo acadêmico, inicialmente ‘diagnosticado’ nos Estados
Unidos, em meados dos anos 1970. (...) como consequência da
reestruturação da educação superior, o que foi interpretado como uma
resposta, de inspiração neoliberal, aos desafios colocados pela
globalização. (...) Esta tendência atinge seu apogeu quando
universidades passam a formar quadros para uma empresa em particular,
como é o caso de ‘Hamburger University’”, uma universidade corporativa.
Efeitos psicossociais da reorganização do trabalho neoliberal
Segundo o autor, os efeitos psicossociais desta nova realidade de
co-produção associada “às demandas da ‘clientela’ consumidora estariam
impregnados na produção acadêmica de nossas universidades públicas”. O
aumento das demandas e a pressão por produtividade pode estar afetando
de forma negativa a saúde dos docentes. Isso “porque exigem que se faça
muito mais num tempo limitado, e esta realidade de trabalho é vivenciada
com tensão (CERVANTES,2009). Tal situação provoca estresse crônico, que
é acompanhado de ansiedade, preocupação, sensação de impotência,
frustração, mau humor, ou seja, um mal-estar difuso.”
“Desdobramentos desta tensão crônica e da sobrecarga de trabalho são a
auto-medicação, a busca de um sobre-esforço de adaptação e as formas
sutis de resistência, ativa ou passiva, tais como: auto-dosagem de
trabalho, não ultrapassagem do horário de trabalho previsto pelo
regulamento, ou não inteirar-se das tarefas encomendadas ou prescritas
(BLANCH& STECHER, 2009)”
O autor cita um estudo realizado pelo Departamento Intersindical de
Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de Trabalho (Diesat). Numa
mostra de 1.800 docentes de instituições privadas, em torno de 50%
usavam algum tipo de medicação psicotrópica, alguns sem a própria
indicação de receita médica (CAMPOS,2009).
A consequência da sobrecarga quantitativa, muita coisa para fazer em
pouco tempo, exigência qualitativa menor do que as possibilidades
potenciais, associada a conflitos de papéis e responsabilidades, à falta
de controle sobre os resultados de seu trabalho são as condições que
promovem o desgaste mental. A ausência de solidariedade por parte de
chefias e colegas também agravam a Síndrome de Burnout (Síndrome do
esgotamento).
Em suas considerações finais, Lacaz alerta para as imposições trazidas
pela reestruturação do modo de produção capitalista contemporânea. Nas
instituições públicas de ensino superior estaria sendo implementado o
chamado capitalismo organizacional que produz significativas alterações
no processo de trabalho e resultam numa “hegemonia da ideologia do
produtivismo acadêmico e na descaracterização da natureza do trabalho
docente”, o que pode estar aumentando os índices de adoecimento na
categoria.
“Assim, a luta pela defesa da saúde dos trabalhadores e por crescente
melhoria nas condições do trabalho docente, hoje tão degradadas e
precarizadas – degradação e precariedade, estas, expressas nas doenças
e/ou distúrbios, ainda não reconhecidos como tal, aqui apontados e, por
isso mesmo, objeto de denúncia – deve ter como preocupação central o
“docente coletivo”, principal razão de ser e existir um sindicato de
abrangência nacional e construído desde a base, e que, por isso mesmo,
deve estar sempre atento, na ausculta dos anseios que dela (categoria)
despontam, no seu cotidiano”.
*Universidade e Sociedade 45 Ano XIX, janeiro de 2010, páginas 31-59.