Desde 1998, dona Maria de Lourdes, 75 anos, vive com um salário mínimo que recebe do INSS. Para se aposentar, trabalhou 30 anos como empregada doméstica, 15 vezes mais que um governador terá que permanecer no cargo para receber R$ 12 mil, valor que dona Maria de Lourdes não recebe em dois anos. Para ter direito ao benefício, ela pagou do próprio bolso a contribuição previdenciária de 20% sobre o piso nacional, quase o dobro dos 11% descontados nos contracheques dos assalariados com carteira assinada.
E, mesmo depois de aposentada, ainda trabalhou por alguns anos, até quando a saúde permitiu. Hoje, com deficiência auditiva, diabetes e hipertensão, peregrina ao lado da filha, Márcia, pelas farmácias do centro da cidade em busca de remédios mais baratos. Dos R$ 465 que recebe todo mês, dependem, além dela, cinco filhos adultos e um neto de 2 anos.
Depois de comprar comida e os medicamentos de uso contínuo, pouco ou quase nada sobra. Para completar o orçamento doméstico, um filho trabalha como pintor, outras duas filhas como manicure e faxineira diarista. “Quando meus filhos não conseguem um biscate, deixo as contas sem pagar”, diz a ex-doméstica, que faz rodízio entre as faturas de água e luz para evitar cortes no fornecimento.
Dona Maria de Lourdes se espanta com a proposta de emenda constitucional (PEC) que prevê a aposentadoria de ex-governadores, com salários de R$ 12 mil, secretária e dois policiais para segurança. “Não acho certo, porque a gente trabalha a vida toda e quando é hora de se aposentar só recebe aquele pouquinho. E o governador vai ganhar em dois anos?”
A indignação é a mesma de outros aposentados ouvidos pelo CORREIO. Dona Maria de Jesus Neto, 80, também contribuiu por 30 anos e sofre para administrar o orçamento. “Graças a Deus dá para viver, não tem como aumentar. Mas eles tudo podem. Fazer o quê? Ovo não briga com pedra”, diz, com a mais pura sabedoria popular. “As coisas estão erradas. Se eles podem se aposentar com dois anos, eu devia poder me aposentar com menos tempo também”, dispara o aposentado Djalma Marques, 76.
Reação popular
Na Assembleia Legislativa, onde a proposta deve ser encaminhada na próxima semana, a repercussão do projeto causou reações diferentes. O líder da oposição, deputado Heraldo Rocha (DEM), já esperava o repúdio dos aposentados ao projeto. “Eu sabia que isso ia acontecer. Os próprios ex-governadores já se manifestaram. Isso é um absurdo”.
Para Rocha, a reação popular pode alterar o andamento da proposta em plenário. “O presidente da Assembleia Legislativa (Marcelo Nilo-PDT) prometeu apresentar (a PEC). Vamos ver se ele apresenta”, provoca. Heraldo Rocha aproveita o impasse para alfinetar o governador. Segundo ele, Nilo não apresentaria a proposta sem a anuência de Jaques Wagner. “Será que o governador e o grupo dele já sabem que vão perder (as eleições do próximo ano)?”, dispara o deputado, insinuando que Wagner já se beneficiaria da aposentadoria integral a partir de 2011.
Procurado pelo CORREIO, o presidente da Assembleia e autor da PEC, Marcelo Nilo, não quis se pronunciar sobre o projeto, mas reafirmou que o texto será apresentado após ele retornar de viagem à França, na segunda-feira.